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sábado, 26 de novembro de 2011

Contribuição Rimbauldiana

O Relâmpago*

        O trabalho humano! é a explosão que, de vez em quando, ilumina meu abismo.
        "Nada é vaidade; ruma à ciência, e para a frente!" clama o moderno Eclesiastes, isto é, Todo mundo. E contudo os cadáveres dos mais e ociosos caem sobre o coração dos outros...Ah! depressa, mais depressa; lá embaixo, além da noite, essas recompensas futuras, eternas...escaparemos delas?
        - Que posso fazer? Conheço o trabalho; e a ciência é muito lenta. Que o coração anda a galope e a luz atroa...eu o vejo bem. É muito simples; e faz muito calor; não precisarão da minha ajuda. Tenho minha obrigação; como vários outros, eu me orgulharei em pô-lo ao lado.
         Minha vida está gasta. Vamos! finjamos, banquemos os vadios, ó piedade! E existiremos divertindo-nos, sonhando amores monstruosos, universos fantásticos, lamentando-nos e censurando as aparências do mundo, saltimbanco, mendigo, artista, bandido, - padre! No meu leito de hospital, o cheiro de incenso voltou poderosamente: guardião dos aromas sagrados, confessor, mártir...
         Reconheço, ali, a sórdida educação que recebi na infância. Depois, o quê!...Atravessar os meus vinte anos, se os outros vão atravessar os seus...
         Não! não! agora eu me revolto contra a morte! O trabalho parece demasiado leve para o meu orgulho: minha traição ao mundo seria um suplício muito curto. No derradeiro momento, eu investiria para a direita, para a esquerda...
        Então, - oh!- cara e pobre alma, a eternidade estaria perdida para nós!



* Uma Temporada no Inferno de Jean-Arthur Rimbaud

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Uma sábia feiticeira, alquimista e, claro professora (que não faz idéia de que lhe atribuo essas duas primeiras alcunhas) ao tecer comentários sobre “O que é o Contemporâneo?” (Agamben) disse que ser contemporâneo é : ser pontual num compromisso que se pode apenas faltar.

Abençoados os lúcidos e os contemporâneos. Os contemporâneos são raros disse ela. Porque quando nos deparamos com essa pergunta temos que nos confrontar com o tempo e com a história. É sobre uma concepção de tempo e uma concepção de história que Agamben estaria falando. Temos de nos perguntar: o que é o tempo? O quê é o presente?

Pensar em contemporaneidade como sendo o pertencimento a uma época é muito pouco. Ser contemporâneo seria ter uma relação especial e singular com o tempo. É uma experiência especial no sentido de ser específica. É uma relação paradoxal: ao mesmo tempo que se está nele (no tempo, no seu tempo), logo que não se pode fugir dele, ao mesmo tempo toma-se uma distância dele. É escolher um ponto de vista anacrônico. É aderir ao tempo por meio de uma distância e escolher um ponto de vista anacrônico. O contemporâneo é o intempestivo, é aquilo que subitamente, inesperadamente, está se colocando fora de uma continuidade temporal e por isso pode olhar o seu próprio tempo. É aquilo/aquele que esta no seu tempo e contra o seu tempo. É saber ver não o que está claro, as luzes, mas a obscuridade. Isto é, perceber o escuro do seu tempo. É pensar como diz Agamben que o escuro é a luz que vem para nós mas não consegue nos alcançar. (As galáxias estão em expansão.) Os raros contemporâneos são aqueles que são capazes de perceber o que está se afastando de nós, aquilo que declina, aquilo que de longe emite luz. O interessante é ver que a luz se endereça a nós mas não consegue nos alcançar. Então que concepção de tempo estamos tendo quando fazemos a pergunta O que é o contemporâneo? É dessa singular relação com o tempo que se fala, de uma dissociação, de um anacronismo. Porque “aqui” há vários aquis. E “agora” há vários agoras. Pois o que é próprio de um tempo é o modo como este se relaciona com o tempo. O tempo não é uma ilusão. É uma experiência.

Casa relâmpago, tentando emitir esses pequenos fragmentos das luzes que nos são endereçadas.

Sê pontual, mesmo que essas luzes não venham nos alcançar.